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Diogo Seixas Lopes

Perdemos o Diogo Seixas Lopes. Diogo era um Lisboeta, nascido em 1972, que cresceu a amar a sua cidade, a experimentar a intensidade de uma cidade que crescia, a descobrir as riquezas do mundo e das pessoas que o habitam. Era filho de duas personalidades que muito contribuíram para a cultura portuguesa: a jornalista Maria João Seixas e o realizador Fernando Lopes. Algumas vezes contou-me as suas memórias de infância de produções cinematográficas nos mais remotos lugares de Portugal, memórias intensas de um país que, nos anos 80, acelerava o seu processo de transformação. Ainda adolescente, Diogo embarcou nessa mudança, imerso na vibração da vida noturna lisboeta, a apreciar a música mais sofisticada e a vanguarda da arte mais radical. Imagino que o seu círculo de amigos era grande o suficiente para articular a cultura refinada da geração dos seus pais — uma mistura única de Nouvelle Vague com Pina Bausch e Jim Jarmusch — e a irreverência da juventude, esperando o melhor da vida.

Fez-se arquitecto, um arquitecto culto, que não hesitava em passar o verão em Nova Iorque a aprender com os arquitectos que estavam na vanguarda. Mas que também não hesitava em juntar-se aos amigos para apanhar o velho comboio da Caparica, mergulhar nas ondas e sentir a água fria do Oceano, comer peixe grelhado e discutir a tática do seu amado Benfica.

Diogo começou a sua vida profissional a escrever. Na viragem do século trabalhou como jornalista num jornal já desaparecido — o Já — e rapidamente mobilizou o seu saber para a mais significativa revista de arquitectura portuguesa desse momento, a Prototypo. Para ele, a Prototypo era uma maneira de aprender, e de ficar a conhecer. Como leitor, assim eu e muitos outros fizemos, expandimos as nossas ideias através das suas páginas, nas quais era apresentada uma grande diversidade de modos de fazer, que eram também analisados e criticados sem restrições: aprender através da acção. Foi uma contribuição singular para a sempre ensimesmada cena portuguesa, que se consolidou como uma aventura colectiva, como o Diogo gostava que fosse. Esta aventura cruzou-se comigo num momento vivaz e inesquecível na conferência Prototypo na Alfândega do Porto. Era um verão quente, arquitectos de todo o mundo aterraram na cidade e, estou certo, que quem esteve presente não esquecerá que a arquitectura pode ser um assunto sério, e que é concebida por pessoas com ideias, capazes de transformações poderosas. O Diogo gostava de ver as pessoas juntas, juntas a conversar.

Só conheci o Diogo mais tarde, depois do seu compromisso para a vida e para a arquitectura com Patrícia Barbas. Juntos, Barbas Lopes desenhavam projectos refinados, enquanto o teatro Thalia renascia das cinzas, depois de mais de 100 anos de esquecimento. Foram os anos duros da crise, e construir uma estrutura assim era, efectivamente, um desafio, mesmo contando com a cumplicidade de Gonçalo Byrne. A estrutura crescia de dia para dia, conquistando aos poucos todo a potência que fazia o Diogo sorrir, e que nós podemos sentir incorporada no betão. Um certo dia, a inscrição no frontão foi recolocada: Hic Mores Hominum Castigantur (aqui se castigam os costumes dos homens). Havia uma ligação evidente entre a ironia da inscrição e o teatro da crise social e política portuguesa. Este sentir político e poético estava presente em todos os gestos do Diogo, cada pensamento ou reflexão carregava um carácter político que se expressava através de uma gravidade poética.

O Diogo gostava de falar, de comunicar. É por isso que temos uma Trienal para construir juntos este Outono, e escrevemos e fizemos tantas coisas juntos. Conheci-o melhor durante as nossas longas conversas. Portugal e a Arquitectura eram o ponto de partida para excursões por todo o mundo. Era um Lisboeta, e em qualquer canto era possível partilhar este sentido de pertença que abria caminho às mais belas e inacreditáveis viagens com o pensamento. E convertia cada pensamento em acção. E cada pensamento, e cada acção, tinham um sentido colectivo e uma vontade generosa de partilhar e aprender com os outros. Por isso é que calcorreámos o país com tantos amigos e tantos arquitectos. Foi nessas correrias que me contou das suas memórias de infância em Trás-os-Montes, que eu depois recuperei nas minhas próprias memórias e nas memórias do cinema. O Diogo tinha uma forma cinematográfica de pensamento, imaginava enquadramentos e montagens, recorrendo sempre a este media poderoso, trazendo o cinema para cada forma e cada acção. As suas memórias cinematográficas de um país atávico eram também as promessas que, na nossa infância, tínhamos para um país diferente. E estávamos sempre dispostos a construir essas promessas. Quem vir as Mil e Uma Noites, o filme do seu grande amigo Miguel Gomes, compreenderá o que não sou capaz de escrever. O mundo é cruel e parece impossível construir essa transformação, é impossível, mas ninguém pode baixar os braços, e não podemos deixar ninguém baixar os braços. Sem concessões. Imagino que fosse essa a pulsão que o levava a comunicar tão bem.

O seu trabalho está a ganhar repercussão internacional, tal como as fundações da sua próxima obra estão a ser cravadas nas avenidas de Lisboa. O puzzle parecia estar a encaixar. De repente, o encanto soturno da metrópole lisboeta que revelou em Cimêncio, em conjunto com Nuno Cera, reverbera com mais força.

O renascer do Thalia, a sua opera prima, foi simultâneo à sua tese sobre a Melancolia. Como escrever um livro sobre o sentido de perda? E como escrever hoje sobre a morte trágica de Aldo Rossi, no próprio dia em que o Diogo morreu? O livro do Diogo sobre a Melancolia, um encadeamento de ideias pungente e poderoso, foi consensualmente aclamado. É uma demonstração que podemos esquecer a arquitectura, mas que não nos podemos esquecer de nós próprios, do nosso próprio esquecimento. A realidade é demasiado cruel e aprendemos isso todos os dias. Também aprendi com o Diogo que temos os nossos amigos para partilhar as agruras da vida, para lutar pelas belas ondas do Atlântico e pelas alegrias da existência, sem nunca perdermos de vista quem somos, de onde vimos e para onde queremos ir. Sempre.

André Tavares
February 18, 2016




Diogo Seixas Lopes, Toronto, 2011, Facing Mies van der Rohe